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Do
meu ponto de vista como compositor deste CD, entendo esta obra como
um passo decisivo para o lançamento de um novo conceito na
divulgação da música contemporânea
portuguesa não erudita.
Na
realidade, o domínio da música erudita
contemporânea, com uma linguagem muito hermética,
não é ainda acessível à maioria dos
ouvintes nem dos compositores. Círculo muito fechado, pelo
menos em Portugal, obriga a um esforço enorme de estudo das
novas linguagens pela parte dos autores e vai encontrar uma resposta
relativamente débil na conquista do mercado consumidor.
Esta
música vem trazer uma dinâmica diferente: não
sendo erudita, porque de facto não o é, tem, no
entanto, uma fortíssima componente académica na sua
construção. Senão, notem-se os encadeamentos
harmónicos muito actuais, a própria
construção dos acordes e a movimentação
criativa das suas vozes interiores, os cambiantes exóticos na
mudança de tonalidades, a riqueza tímbrica utilizada na
instrumentação pelo recurso aos modernos geradores de
som digital, que não se encontram normalmente na música
de entretenimento que se ouve diariamente nos meios audiovisuais.
E,
também, é de ter em atenção como este
avanço significativo na construção
harmónica portuguesa não renega a sua base
temática inegavelmente nacional.
Ao
ouvir-se esta música, sente-se-lhe o paladar lusitano; e
não é difícil apercebermo-nos, desde o
início da audição, da existência de um
sabor melódico muito português que nos define como povo
musical por excelência, proprietário legítimo de
um cancioneiro popular riquíssimo cujas origens se perdem nos tempos.
Temos,
efectivamente, um jeito próprio de entoar melodias, com uma
tendência acentuada para a melancolia e para os tons menores, e
somos o único povo do mundo que trouxe para a linguagem
musical a mística quase nebulosa da palavra "saudade".
Esta
nova linguagem, ainda desconhecida do grande público, vem
revelar um grupo de compositores nacionais que escrevem música
sem objectivos comerciais de curto prazo, deixando simplesmente voar
a sua imaginação por universos sonoros muito reservados
ainda, mas onde a cultura portuguesa se reflecte a cada momento.
Um
passo em frente, portanto, nesta linha de continuidade em que a
expressão musical está inserida e que é,
seguramente, um elo de ligação para uma futura
geração de compositores que pretendem sair das formas
musicais já há muito enunciadas e, de algum modo, esgotadas.
Rui
Serodio
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